Autor: Carlos Meleiro

  • O Dia em que decidi respirar

    O Dia em que decidi respirar

    Tem dias que a gente se sente / Como quem partiu ou morreu / A gente estancou de repente / Ou foi o mundo então que cresceu

    Esses versos do Chico Buarque sempre passam pela minha cabeça toda vez que sinto que algo vai mal. E foi assim que me sentia quando acordei num dia de fevereiro de 2008. Era um sábado. Fui acender o primeiro cigarro do dia, como fazia regularmente. O hábito trazia uma recompensa, uma espécie de alívio. Tinha bebido bastante na noite anterior e fumado quase um maço de cigarros somente durante a noite. Por alguma razão que nunca entendi, senti algo parecido com repulsa quando pus o cigarro na boca. Preferi devolver o cigarro no maço e sair para caminhar. Vesti um short e calcei um tênis. Foi meu ultimo cigarro.

    No ano de 2008, vivi uma transformação significativa em minha vida. Ela começou com a decisão de não fumar um cigarro. Era um sábado, 23 de fevereiro de 2008. Nesse dia também ocorreu a queda de um bombardeiro B-2 Spirit durante o pouso, em Missouri, EUA, por erro humano. Também se comemorou o Dia do Rotaryano no Brasil. Só isso. Não houve um evento isolado de impacto mundial ou nacional registrado. Mas o meu evento foi inesquecível.

    Nesse dia saí para caminhar. E tive vontade de correr. Desafiei meus limites. Fiz uma corrida de 52 minutos. Eu tinha 43 anos. Isso aconteceu após um longo período sem exercícios. Na verdade, minha memória não registra atividade física após os 25 anos. Também não registra qualquer cuidado com o que eu comia. Registra muitos cigarros e bastante bebida. E trabalho, muito trabalho. A vida havia se tornado uma rotina sem graça, sem pausas e, principalmente, sem propósitos. Claro, havia minha família. E cuidar dela era um enorme propósito. Mas basicamente era somente isso. Não havia nada para mim. Eu tinha me convertido em uma máquina de geração de renda que sequer precisava ser lubrificada. E o que é pior, foi uma auto-conversão.

    Aquela corrida de 52 minutos foi mágica. Quis continuar. Descobri que a prática da corrida era essencial para me ajudar a largar o fumo. Quando tentei fumar um cigarro após essa primeira corrida, tive um grande enjoo. Essa sensação permaneceu por anos sempre que sentia o cheiro de cigarro. Ao longo do ano, busquei apoio profissional. Consultei médico do esporte, que me recomendou exercícios de alongamento, fortalecimento e RPG. Fiz também um check-up completo, que indicou boa saúde geral. Em abril, iniciei um acompanhamento nutricional com suplementação específica. Em maio, comecei uma dieta rigorosa. Isso me ajudou a alcançar uma melhor condição física. Em 2009, minha condição física já tinha evoluído. Participei de eventos esportivos organizados. Isso consolidou minha nova rotina. Buscava novos desafios e eles sempre exigiam preparação. O ciclo virtuoso estava criado. No ano seguinte veio a primeira meia-maratona e logo depois corri minha primeira maratona.

    Como escreveu Charles Duhigg, o poder do hábito está na capacidade de transformar e moldar a vida. Isso ocorre por meio de um ciclo de três passos: gatilho, rotina e recompensa. O gatilho é o estímulo que inicia o comportamento. A rotina é a ação que se segue. A recompensa satisfaz o desejo. Ela faz o cérebro memorizar a experiência e repeti-la. Para mudar um hábito ruim, Duhigg propõe a “regra de ouro da mudança de hábito”. Ele sugere identificar esse ciclo e manter o gatilho e a recompensa. No entanto, a rotina deve ser substituída por outra que satisfaça o mesmo desejo. Assim, não é necessário eliminar o hábito, mas transformá-lo em um comportamento mais positivo. Os hábitos agem como uma forma de automação do cérebro. Eles permitem economizar energia mental. Isso ajuda a reservar a força de vontade para outras decisões. Quando bem estruturados, eles favorecem o desenvolvimento pessoal e profissional. Esses hábitos criam rotinas de produtividade, exercícios e disciplina. Eles também exercem impacto social. Eles ajudam a construir movimentos coletivos, fortalecendo a identidade e o senso de pertencimento entre as pessoas.

    Em fevereiro de 2008 eu não sabia sobre hábitos. O livro de Duhigg foi publicado também num mes de fevereiro, mas somente em 2012. No ano seguinte foi premiado com o Pulitzer. No meu caso, houve uma troca de comportamento. Eu comecei a correr ao invés de fumar. O gatilho e a recompensa foram mantidos. Eu fumava quando me sentia ansioso ou deprimido. Hoje quando me sinto assim me atiro na atividade física. A endorfina, serotonina, dopamina são recompensas maravilhosas. Assim como outros hormônios liberados durante a prática esportiva. Um pacote muito melhor que a nicotina. Mas nada disso ocorreu porque eu havia identificado o ciclo e planejado a mudança. Ou seja, eu não decidi respirar, do jeito que o título deste artigo pode levar a entender. Algo aconteceu, inconscientemente, que me fez rejeitar o cigarro e abraçar a ideia da caminhada.

    Essa questão me intrigou por muito tempo. Formulei algumas hipóteses que explicasse de onde veio tal decisão. Nenhuma delas parecia provável.

    Recentemente, li um livro chamado Uma breve história da inteligência, escrito por Max Bennett. A ideia do livro é explicar a evolução do cérebro humano e da inteligência ao longo de bilhões de anos. Ele apresenta uma narrativa que explica como o cérebro se desenvolveu desde organismos simples até a complexidade da mente humana atual. Quando discorre sobre como os animais aprendem onde buscar comida, ou que perigos evitar, sugere o aprendizado por reforço. Ele afirma que o aprendizado por reforço requer dois processos opostos: um para comportamentos que foram previamente reforçados (exploração) e outro para comportamentos que são novos (investigação). Essas escolhas são, por definição, opostas. A exploração sempre direcionará o comportamento para recompensas conhecidas, a investigação sempre direcionará para o que é desconhecido. A solução para o dilema da exploração-investigação é a recompensa biológica para a curiosidade. Ou seja, os animais são recompensados quimicamente por serem curiosos. Eles são recompensados quimicamente por apostarem. Claro que isso nos leva a Vegas, já que a curiosidade explica o jogo, que é uma estranheza irracional de nosso comportamento. Curiosidade está presente em peixes e em ratos, em macacos e em bebês humanos. Ele também diz que a própria surpresa provoca a liberação de dopamina, mesmo que não haja recompensa “real”.

    Me convenci que eu decidi respirar não por um plano elaborado pelo meu córtex frontal, mas por uma decisão tomada pela parte reptiliana de meu cérebro. O gatilho foi o mesmo de sempre. Mas a curiosidade sobre uma outra experiência me fez alterar o comportamento. E como as recompensas foram mais do que satisfatórias, foi fácil um vício substituir o outro.

  • Do complexo de Vira-Lata à Potência Ambiental?

    Do complexo de Vira-Lata à Potência Ambiental?

    Há algumas semanas participei de um encontro para debater o futuro do trabalho. Havia recebido o convite e a proposta parecia bastante ousada. Não hesitei em confirmar minha presença, já que o tema é de meu maior interesse. No artigo “Haverá um momento em que a maioria da humanidade não terá trabalho ?” trago algumas teses que estudiosos do tema estão formulando. Esse encontro era um kickoff de um trabalho que analisaria a questão por algum tempo. Embora a agenda não se alinhava exatamente ao que eu havia imaginado, alguns tópicos foram inspiradores. Um, em particular, me intrigou. Foi um estudo chamado “O Brasil que o Brasil quer ser – Caminhos para um novo ideal de país”. O projeto foi criado para servir como base a uma agenda de tratamento de reputação e imagem do Brasil.

    O trabalho buscou compreender como o país é percebido tanto por estrangeiros quanto por brasileiros. Ele revelou uma visão positiva da hospitalidade, turismo e riquezas naturais do país. No entanto, há fragilidades em áreas chave como inovação, sustentabilidade, direitos humanos e ambiente de negócios.

    Internacionalmente, a principal característica associada ao Brasil é a diversão e o acolhimento. Esses atributos são atraentes. No entanto, eles são insuficientes para garantir reconhecimento em questões mais sérias. O país aparece bem colocado diante dos pares latino-americanos e dos BRICS, mas distante do grupo de grandes potências tradicionais.

    No âmbito interno, o estudo mostra uma predominância do sentimento de esperança. Isso ocorre mesmo diante de frustrações e reconhecimentos críticos das dificuldades históricas, como desigualdades, racismo e obstáculos institucionais.

    Essa esperança, por muitos anos, foi vista como passiva, baseada em promessas de um futuro melhor. Contudo, o estudo mostra que há bastante espaço para uma esperança ativa. A valorização do país e de suas capacidades está crescendo. Há desejo de assumir um papel protagonista no cenário internacional. O povo brasileiro exibe enorme resiliência, criatividade e habilidade para o diálogo. Essas são características essenciais para enfrentar os próprios problemas. Elas também são fundamentais para promover mudanças estruturais.

    O estudo destaca a necessidade de superar o chamado “complexo de vira-lata”. Esta é a percepção de inferioridade em relação a outras nações. Ao romper esse paradigma, o Brasil pode valorizar melhor suas conquistas e competências. O país pode se enxergar como referência global em múltiplos espaços de excelência. Isso inclui biodiversidade, energia limpa, cultura, ciência, políticas sociais, inovação e agricultura sustentável. O país possui ainda uma vocação diplomática única, reconhecida pela capacidade de promover o diálogo e a conciliação internacional.

    Para consolidar esse reposicionamento, o relatório propõe a construção de narrativas que realcem os traços de sociobiodiversidade, pragmatismo e acolhimento. O Brasil deve se afirmar não só como detentor de grande diversidade natural e social. Ele também deve se posicionar como protagonista do desenvolvimento sustentável. Além disso, deve ser capaz de atuar como mediador global em tempos de crise climática e geopolítica. Essa atuação exige uma combinação entre ações estratégicas. Isso inclui proteção ambiental, inclusão social, valorização da cultura e combate à desigualdade. Também requer inovação tecnológica e comunicação transparente. Além disso, é necessária uma postura consistente em fóruns internacionais.

    Em síntese, a pesquisa descobre um Brasil que quer o protagonismo. E que acha isso possível. O país é capaz de combinar sua grandeza ambiental e cultural com competências inovadoras. E que possui força institucional.

    O impacto dessa provocação sobre o paradigma do desenvolvimento econômico e militar como única via é grande. Seria muita ingenuidade cogitar sobre nosso potencial ambiental? Não somos uma potência econômica ou militar destacada. Porém, temos uma grande janela de oportunidade para nos tornarmos uma potência ambiental. Talvez. O tempo nos parece inesgotável na juventude. Mas na maturidade vai se tornando a principal riqueza. Nosso mundo não só vislumbra o esgotamento de fontes clássicas de energia, mas já teme pela própria disponibilidade de água. Assiste a catástrofes causadas por mudanças climáticas. Esse mundo também pode reconsiderar o conceito de valor. Se desta vez fizermos bem a nossa parte, podemos estar num lugar privilegiado nessa largada. Me anima sobretudo o fato de que não é apenas um sonho. É um sonho que está sendo compartilhado. E está sendo acionado.

  • O que faz um líder ser grande?

    O que faz um líder ser grande?

    O que faz um líder ser grande? Me fiz essa pergunta diversas vezes, mesmo antes de liderar equipes. Sou de uma geração que teve sua infância no inicio da transição entre sociedade industrial e sociedade de serviços. E sendo brasileiro, convivi com a autoridade militar no poder até a formalização da democracia em 1985. Vivi, durante parte razoável da minha carreira profissional, os resquícios da filosofia industrial/militar de comando nas empresas. Muitos ainda pensavam que liderança é a autoridade, a posição ou até mesmo a capacidade de dar ordens.

    Isso certamente não significa grandeza. Quando olhamos para reflexões como as de James C. Hunter em “The Servant”, percebemos que a visão tradicional de poder perde o brilho quando comparada a algo bem mais profundo: a ideia de que liderar é servir.

    A verdadeira força de um líder não está em mandar, mas em influenciar. É quando as pessoas trabalham não por obrigação, mas porque acreditam no propósito que está sendo construído juntas. Grandeza, então, não é medida na obediência cega. É medida na energia que faz uma equipe remar na mesma direção. Eles estão convictos de que o destino vale o esforço.

    Ser grande como líder é assumir que sua missão é criar as condições para o melhor florescer de cada um. É identificar barreiras e removê-las, é dar suporte sem roubar o protagonismo da equipe. Isso exige paciência, humildade, respeito e acima de tudo a capacidade de colocar o ego de lado. Grandeza não é sobre “eu na frente”, mas sobre “nós avançando juntos”.

    Hunter lembra ainda de algo essencial: ninguém muda ninguém. O papel do líder não é moldar pessoas à força. Em vez disso, ele deve cultivar um ambiente fértil para que cada um faça suas próprias escolhas de crescimento. Isso significa estar presente de verdade, ouvir, ser honesto, dar feedbacks construtivos e, sempre que possível, inspirar pela ação.

    No fim, talvez a grandeza de um líder se resuma à ousadia de aplicar, todos os dias, a regra de ouro: tratar sua equipe como gostaria de ser tratado. É nesse equilíbrio entre servir e guiar, apoiar e desafiar, que o líder deixa de ser apenas um “chefe” e passa a ser alguém que marcou positivamente o caminho de todos que estiveram ao seu lado.

  • Haverá um momento em que a maioria da humanidade não terá trabalho ?

    Haverá um momento em que a maioria da humanidade não terá trabalho ?

    O título deste artigo pode soar apocalíptico, mas talvez não seja um exagero pensar nesse cenário. Não me agrada o tom de previsões alarmistas. Eu também não gosto de modismos. Isso inclui o atual em torno da inteligência artificial. No entanto, é inegável o poder extraordinário que os algoritmos vêm acumulando, com um desenvolvimento em ritmo acelerado. Não acredito que profissões inteiras desaparecerão, como muitos afirmam. Médicos e advogados, por exemplo, continuarão existindo, ainda que em menor número. Serão justamente os mais qualificados. Eles serão aqueles que dominarem as ferramentas digitais. Como em outros períodos históricos, corremos o risco de ver a precarização do trabalho. Já viajei com motoristas da Uber formados em medicina e direito, o que ilustra bem essa dinâmica. Em outros tempos, novas profissões surgiram. Elas absorveram parte da força de trabalho. Isso pode voltar a acontecer se houver requalificação e atualização constante. Mas persiste a dúvida: o que acontecerá se até os motoristas de Uber forem substituídos por carros autônomos? E se as novas qualificações se mostrarem complexas demais para grande parte desse contingente deslocado pela automação?

    Antes da Revolução Industrial, cada avanço tecnológico alcançado pela humanidade promovia um aumento da produtividade que, por sua vez, impulsionava o crescimento populacional. Segundo o economista Oded Galor, autor do livro The Journey of Humanity, as inovações elevavam a produtividade. No entanto, o crescimento demográfico as neutralizava. Ele explica que o aumento na produtividade não melhorava o padrão de vida a longo prazo. Assim, as populações voltavam aos mesmos níveis de vida anteriores às inovações. Galor destaca que, por quase trezentos mil anos após o surgimento do Homo sapiens, a renda per capita se mantinha pouco acima do necessário para a sobrevivência básica. Nesse período, doenças, fome e alta mortalidade infantil eram comuns. Mulheres frequentemente morriam no parto. A expectativa média de vida raramente ultrapassava os 40 anos. Com base em variadas fontes históricas, ele evidencia que o salário diário, expresso em quilos de trigo, variava entre 5 e 15 quilos ao longo de diferentes épocas e regiões. Era de 7 quilos na Babilônia há 3 mil anos e 13 quilos em Atenas há 2 mil anos. No Egito, era de 4 quilos, e em Paris, 5 quilos no século XVIII.

    Tudo isso mudou com a chamada “Revolução Industrial”, que não deve ser definida apenas pela era do vapor, do algodão ou do ferro, mas sim como a era do progresso. Uma tese interessante sugere que esse período representou uma espécie de saturação tecnológica, combinada com outros fatores, como mudanças na educação infantil e o aumento global da taxa de alfabetização. O avanço tecnológico aliado à educação criou um ciclo autocatalítico, que abriu caminho para a produção de alimentos e bens em níveis inéditos na história da humanidade. Pela primeira vez, éramos capazes de produzir o suficiente para alimentar toda a população. A complexa questão da distribuição e concentração de renda, no entanto, permanece fora do escopo deste artigo. O fato inegável é que, hoje, temos os recursos necessários para alimentar a todos, caso haja vontade política e social para isso.

    Todas essas novas tecnologias, criadas para substituir o trabalho humano com eficiência superior, não provocaram desemprego em massa. Embora máquinas tenham substituído alguns trabalhadores, esses profissionais acabaram encontrando novas oportunidades de emprego. Estudos indicam que, apesar de variações pontuais, a taxa de desemprego permaneceu estável entre 1750 e 1900. Esse fenômeno pode ser explicado pelos benefícios da chamada força complementar entre tecnologia e trabalho humano, que atua em dois níveis distintos. O primeiro é o aumento da produtividade decorrente da cooperação entre trabalho automatizado e trabalho humano, que torna o trabalhador mais eficiente ao utilizar novas ferramentas tecnológicas — como a máquina de tear, processadores de texto ou planilhas para contadores — resultando em redução de preços dos produtos e serviços, o que estimula maior demanda e, consequentemente, gera novas vagas de emprego. O segundo aspecto é o “bolo maior”, ou seja, o crescimento da economia causado pelo aumento da produtividade proporcionado pela inovação tecnológica. Esse processo cria um círculo virtuoso de desenvolvimento e geração de trabalho.

    Por muito tempo, aceitamos a narrativa tranquilizadora de que máquinas e humanos coexistem de forma complementar. Os caixas eletrônicos, por exemplo, não eliminaram os bancários, apenas os deslocaram para funções mais complexas. No entanto, essa história confortante parece perder força atualmente. Estamos diante de um cenário novo: máquinas que não só substituem a força física, mas também começam a superar capacidades cognitivas e até mesmo emocionais dos humanos. As máquinas têxteis inglesas do passado substituíam mestres artesãos, permitindo que trabalhadores com menor qualificação produzissem bens de alta qualidade. Já as tecnologias atuais exigem níveis de capacitação tão avançados e extensos que se tornam inacessíveis para grande parte da população.

    Segundo Daniel Susskind, economista inglês e autor do livro A World without Work, uma teoria defendida por um grupo do MIT afirmava que tarefas rotineiras e passíveis de explicação explícita poderiam ser automatizadas, enquanto aquelas que dependem de conhecimento tácito permaneceriam exclusivas dos humanos. Contudo, essa distinção vem se esvaindo. A nova geração da inteligência artificial opera de maneira fundamentalmente diferente do raciocínio humano. Quando o Deep Blue derrotou Kasparov, não o fez por pensar como um enxadrista, mas sim por processar informações de forma radicalmente superior. De maneira semelhante, o AlphaGo não aprendeu as estratégias milenares do jogo Go, mas desenvolveu abordagens inéditas, incompreensíveis até para mestres humanos. Conforme observado por Darwin, habilidades extraordinárias podem emergir gradualmente de processos automáticos e cegos, muito diferentes da inteligência humana. É exatamente isso que estamos testemunhando: máquinas que “sabem muito sobre pouco”, enquanto humanos “sabem pouco sobre muito”, e essa especialização intensiva tem se mostrado altamente eficaz.

    A ameaça da automação não se restringe a um setor específico. Atualmente, assistimos a uma invasão simultânea em três frentes distintas: tarefas manuais são impactadas por robôs industriais, veículos autônomos e drones de entrega; tarefas cognitivas sofrem transformações por meio de diagnósticos médicos assistidos por inteligência artificial, análise jurídica automatizada e jornalismo gerado por algoritmos; enquanto tarefas afetivas estão sendo assumidas por chatbots de atendimento, sistemas personalizados de recomendação e até companhias artificiais.

    Essa transformação tecnológica pode gerar dois tipos de desemprego: o friccional e o estrutural. No desemprego friccional, os trabalhadores enfrentam dificuldades para se realocar no mercado devido à falta de habilidades específicas — por exemplo, um metalúrgico de 50 anos não se torna programador facilmente, mesmo com boa vontade e esforço. Já o desemprego estrutural pode ser ainda mais impactante, ocorrendo quando a complementaridade entre tecnologia e trabalho humano deixa de ser suficiente para absorver os trabalhadores deslocados. Nesse cenário, quanto maior a autonomia das novas tecnologias, menor tende a ser a complementação e, consequentemente, maior o potencial de desemprego estrutural.

    Podemos estar testemunhando a transição da era do trabalho para algo ainda indefinido. Por séculos, o trabalho foi a âncora da estabilidade social, garantindo tanto a distribuição de renda quanto o sentido de vida. Essa âncora pode estar se soltando, e ainda não sabemos o que a substituirá. A velocidade dessa transformação varia entre regiões devido a diferenças nas tarefas locais, custos de mão de obra e regulamentações, mas a direção é irreversível. A questão é se estaremos preparados para as consequências. O futuro do trabalho não é uma questão técnica ou econômica. É uma questão da própria civilização, que exige respostas corajosas para evitar que a maior revolução tecnológica da história humana se torne também a mais desigual.

  • Amor de amigo some? Estamos nos distanciando dos amigos?

    Amor de amigo some? Estamos nos distanciando dos amigos?

    Se você também se sentiu um pouco culpado no Dia do Amigo porque só conseguiu mandar um texto no WhatsApp ou rede social (ou nem isso …) em vez de um abraço de verdade, parece que não estamos só. Lendo um artigo muito interessante (e um pouco dolorido) na Folha de São Paulo, escrito por Carol Tilkian, descobri que a sensação de “falta uma rotina de presença” não é exclusividade minha.

    Parece que a gente tá tão focado em colocar a “máscara de oxigênio em nós mesmos” que as amizades, que eram tão gostosas na infância, por não serem urgentes nem cobrarem nada, acabam ficando para um depois que nunca chega. 

    Uma pesquisa do PoderData de 2023 mostra que 1 em cada 4 brasileiros tem no máximo um amigo próximo. Mais de 1 em cada 10 nâo têm nenhum! Outra pesquisa, do Instituto Locomotiva de 2022, revela que um quarto dos brasileiros diz não se sentir próximo de ninguém. Não pela quantidade de gente à sua volta, mas pela baixa qualidade nos vínculos.

    O artigo da Carol faz uma boa provocação. Com a falta de tempo, até a amizade adotou a lógica da produtividade. Buscamos comunidades de interesse, buscamos aqueles que nos espelham, que são do “nosso mundo” …  e nos distanciamos daqueles que são diferentes de nós, mesmo tendo compartilhado muitas verdades no passado. Apesar de que são exatamente essas relações verdadeiras que nos dão qualidade e expectativa de vida. 

    Então, antes que a gente vire uma sociedade de “estarmos sozinhos, juntos” (ótima frase da psicóloga Sherry Turkle, mencionada no texto), que tal ligar para um amigo? Marcar um café, um jantar, uma conversa de verdade? 

  • Escrever não é difícil – difícil é sentar-se para escrever

    Escrever não é difícil – difícil é sentar-se para escrever

    A frase acima é de Steven Pressfield, autor de “The War of Art”, Ela ecoa uma verdade profunda sobre o poder da regularidade e a superação da resistência interna, também conhecida como auto-sabotagem. Refleti muito sobre isso quando fiz o Caminho de Santiago, onde a disciplina diária de caminhar 25 a 30 km é inegociável. Em poucos dias a distância percorrida vai se tornando grandiosa. Você nem acredita que andou tanto. O mesmo padrão dos efeitos produzidos pelos exercícios físicos constantes no bem-estar físico. A consistência em nossos projetos pessoais e profissionais é o que realmente transforma.

    Imagine-se no Caminho Francês: 6 a 8 horas de trabalho físico por dia, sem folga nos fins de semana, o corpo doendo e a mente tentando sabotar com argumentos bastante racionais. Da mesma forma, em nossa jornada profissional, surgem desafios complexos para os quais não temos soluções imediatas. No entanto, é a regularidade – o ato de continuar caminhando, mesmo quando não sabemos o próximo passo – que nos permite encontrar as respostas.

    Não se trata de esperar a inspiração perfeita ou a ausência de medo. Pelo contrário, trata-se de tornar-se um profissional, como defende Pressfield. Ele diz que Amadores esperam vencer o medo para começar; profissionais sabem que o medo sempre estará lá, mas seguem em frente. Eles mergulham de cabeça, dependem daquela atividade e, por terem apostado tão alto, encontram soluções e inspirações através da dedicação constante. Tenho observado exatamente isso no mundo das startups. É na consistência de pequenos passos, na disciplina de enfrentar o desafio diário, que está a verdadeira força transformadora. Claro que não garante o sucesso. Mas sem a constância o fracasso é quase certo.

  • Trabalho presencial vs remoto: o que dizem as empresas?

    Trabalho presencial vs remoto: o que dizem as empresas?

    A edição de 12 de julho de 2025 da revista The Economist divulga uma pesquisa interessante sobre o tema. Analisaram 900 empresas e trouxeram insights de qualidade para essa questão.

    A análise revelou que companhias com políticas rígidas de trabalho presencial (5 dias por semana) obtêm melhores avaliações em “agilidade” – capacidade de responder rapidamente a mudanças no mercado. Isso ocorre porque funcionários no escritório recebem informações mais rapidamente e podem se adaptar melhor às circunstâncias.

    Porém, essas mesmas empresas tiveram piores avaliações em outros aspectos importantes: apoio aos funcionários, qualidade da liderança, toxicidade no ambiente de trabalho, transparência, equilíbrio trabalho-vida pessoal. Estudos também mostram que forçar o retorno ao escritório resulta em menor satisfação no trabalho e maior rotatividade de funcionários.

    Parece mesmo que não existe uma fórmula ideal. Tudo indica que regras híbridas podem unir o melhor dos dois mundos. Penso que a escolha depende do DNA da empresa, do tipo de trabalho e da transparência sobre as expectativas e trade-offs envolvidos. Vários anos após a pandemia, as empresas ainda buscam o equilíbrio ideal entre trabalho presencial e remoto.

  • Aquele que tem um Porquê pode suportar quase qualquer Como

    Aquele que tem um Porquê pode suportar quase qualquer Como

    A frase acima é de Nietzsche. Eu a li citada num livro do Viktor Frankl chamado Man´s search for meaning. Achei a frase poderosíssima, sobretudo citada num livro que trata, como o nome diz, da busca por significado. 

    Esse livro estava no meu Kindle quando percorri o Caminho de Santiago, no ano passado. Ele conta como Viktor sobreviveu ao Holocausto – esteve em Auschwitz – e posteriormente fundou a logoterapia, com foco no propósito e em sua busca.

    Propósito é essencial para nós, humanos. Nem todos somos Luther Kings ou Gandhis, mas todos podemos ter nossos propósitos: construir uma carreira significativa, família, filhos, aventuras, criações… Qualquer um é válido. Precisam ser descobertos.

    Os melhores momentos da minha vida foram realizando meus propósitos – seja na carreira profissional ou me superando em desafios pessoais. Como disse Victor Frankl: não há nada no mundo que ajude mais uma pessoa a sobreviver do que o conhecimento de que existe um significado na sua vida.

    No mundo corporativo, vejo profissionais perdidos, só reagindo ao que acontece. Mas quando você tem clareza do seu “porquê”, tudo muda. Você toma decisões com mais convicção, inspira e encontra energia para superar obstáculos que pareciam impossíveis. O propósito não é só sobre ser feliz – é sobre ter direção.

  • Um caderno de notas

    Um caderno de notas

    Tenho enorme dificuldade em organizar meus pensamentos. Brigo com ideias que surgem na minha mente, tentando formata-las no abstrato. Brigo com anotações que faço de observações que considero interessantes, registrando-as caoticamente em qualquer lugar. E claro, na maior parte das vezes não as encontro quando preciso. Some a isso fotos, audios, links de páginas web, resumos e anotações de livros e tudo o mais que vale a pena ser registrado. Pouco se aproveita, a maioria se perde.

    Este blog nasce com um propósito simples: ser o repositório de tudo aquilo que eu considero valioso a ponto de ser registrado. Com o grande desafio de transformar fragmentos de pensamentos e ideias, mídias e outros conteúdos, em textos organizados, minimamente legíveis, que possam se conectar ao longo do tempo, convertendo-se em elos de algo maior.

    A fonte de inspiração para este experimento veio de um artigo que me foi enviado por meu filho Juan. O artigo se chama The Memex Method, escrito por Cory Doctorow (link abaixo).

    https://doctorow.medium.com/the-memex-method-238c71f2fb46

    O que você pode esperar deste blog? Nenhuma publicação feita de maneira seletiva, atendendo a um ou outro tema planejado para um determinado público. Nenhum tema específico, embora neste momento tenho bastante interesse em algumas áreas, como por exemplo liderança, tecnologia, neurociências, psicologia, economia, evolução. O que será publicado aqui não atenderá nenhuma linha editorial específica, nem atenderá algum público alvo.

    Resumindo, se você chegou até este ponto do texto, possivelmente o melhor que possa fazer seja sair do blog. Ou, quem sabe, arriscar mais um pouco. Pode haver alguma pérola escondida.