Haverá um momento em que a maioria da humanidade não terá trabalho ?

O título deste artigo pode soar apocalíptico, mas talvez não seja um exagero pensar nesse cenário. Não me agrada o tom de previsões alarmistas. Eu também não gosto de modismos. Isso inclui o atual em torno da inteligência artificial. No entanto, é inegável o poder extraordinário que os algoritmos vêm acumulando, com um desenvolvimento em ritmo acelerado. Não acredito que profissões inteiras desaparecerão, como muitos afirmam. Médicos e advogados, por exemplo, continuarão existindo, ainda que em menor número. Serão justamente os mais qualificados. Eles serão aqueles que dominarem as ferramentas digitais. Como em outros períodos históricos, corremos o risco de ver a precarização do trabalho. Já viajei com motoristas da Uber formados em medicina e direito, o que ilustra bem essa dinâmica. Em outros tempos, novas profissões surgiram. Elas absorveram parte da força de trabalho. Isso pode voltar a acontecer se houver requalificação e atualização constante. Mas persiste a dúvida: o que acontecerá se até os motoristas de Uber forem substituídos por carros autônomos? E se as novas qualificações se mostrarem complexas demais para grande parte desse contingente deslocado pela automação?

Antes da Revolução Industrial, cada avanço tecnológico alcançado pela humanidade promovia um aumento da produtividade que, por sua vez, impulsionava o crescimento populacional. Segundo o economista Oded Galor, autor do livro The Journey of Humanity, as inovações elevavam a produtividade. No entanto, o crescimento demográfico as neutralizava. Ele explica que o aumento na produtividade não melhorava o padrão de vida a longo prazo. Assim, as populações voltavam aos mesmos níveis de vida anteriores às inovações. Galor destaca que, por quase trezentos mil anos após o surgimento do Homo sapiens, a renda per capita se mantinha pouco acima do necessário para a sobrevivência básica. Nesse período, doenças, fome e alta mortalidade infantil eram comuns. Mulheres frequentemente morriam no parto. A expectativa média de vida raramente ultrapassava os 40 anos. Com base em variadas fontes históricas, ele evidencia que o salário diário, expresso em quilos de trigo, variava entre 5 e 15 quilos ao longo de diferentes épocas e regiões. Era de 7 quilos na Babilônia há 3 mil anos e 13 quilos em Atenas há 2 mil anos. No Egito, era de 4 quilos, e em Paris, 5 quilos no século XVIII.

Tudo isso mudou com a chamada “Revolução Industrial”, que não deve ser definida apenas pela era do vapor, do algodão ou do ferro, mas sim como a era do progresso. Uma tese interessante sugere que esse período representou uma espécie de saturação tecnológica, combinada com outros fatores, como mudanças na educação infantil e o aumento global da taxa de alfabetização. O avanço tecnológico aliado à educação criou um ciclo autocatalítico, que abriu caminho para a produção de alimentos e bens em níveis inéditos na história da humanidade. Pela primeira vez, éramos capazes de produzir o suficiente para alimentar toda a população. A complexa questão da distribuição e concentração de renda, no entanto, permanece fora do escopo deste artigo. O fato inegável é que, hoje, temos os recursos necessários para alimentar a todos, caso haja vontade política e social para isso.

Todas essas novas tecnologias, criadas para substituir o trabalho humano com eficiência superior, não provocaram desemprego em massa. Embora máquinas tenham substituído alguns trabalhadores, esses profissionais acabaram encontrando novas oportunidades de emprego. Estudos indicam que, apesar de variações pontuais, a taxa de desemprego permaneceu estável entre 1750 e 1900. Esse fenômeno pode ser explicado pelos benefícios da chamada força complementar entre tecnologia e trabalho humano, que atua em dois níveis distintos. O primeiro é o aumento da produtividade decorrente da cooperação entre trabalho automatizado e trabalho humano, que torna o trabalhador mais eficiente ao utilizar novas ferramentas tecnológicas — como a máquina de tear, processadores de texto ou planilhas para contadores — resultando em redução de preços dos produtos e serviços, o que estimula maior demanda e, consequentemente, gera novas vagas de emprego. O segundo aspecto é o “bolo maior”, ou seja, o crescimento da economia causado pelo aumento da produtividade proporcionado pela inovação tecnológica. Esse processo cria um círculo virtuoso de desenvolvimento e geração de trabalho.

Por muito tempo, aceitamos a narrativa tranquilizadora de que máquinas e humanos coexistem de forma complementar. Os caixas eletrônicos, por exemplo, não eliminaram os bancários, apenas os deslocaram para funções mais complexas. No entanto, essa história confortante parece perder força atualmente. Estamos diante de um cenário novo: máquinas que não só substituem a força física, mas também começam a superar capacidades cognitivas e até mesmo emocionais dos humanos. As máquinas têxteis inglesas do passado substituíam mestres artesãos, permitindo que trabalhadores com menor qualificação produzissem bens de alta qualidade. Já as tecnologias atuais exigem níveis de capacitação tão avançados e extensos que se tornam inacessíveis para grande parte da população.

Segundo Daniel Susskind, economista inglês e autor do livro A World without Work, uma teoria defendida por um grupo do MIT afirmava que tarefas rotineiras e passíveis de explicação explícita poderiam ser automatizadas, enquanto aquelas que dependem de conhecimento tácito permaneceriam exclusivas dos humanos. Contudo, essa distinção vem se esvaindo. A nova geração da inteligência artificial opera de maneira fundamentalmente diferente do raciocínio humano. Quando o Deep Blue derrotou Kasparov, não o fez por pensar como um enxadrista, mas sim por processar informações de forma radicalmente superior. De maneira semelhante, o AlphaGo não aprendeu as estratégias milenares do jogo Go, mas desenvolveu abordagens inéditas, incompreensíveis até para mestres humanos. Conforme observado por Darwin, habilidades extraordinárias podem emergir gradualmente de processos automáticos e cegos, muito diferentes da inteligência humana. É exatamente isso que estamos testemunhando: máquinas que “sabem muito sobre pouco”, enquanto humanos “sabem pouco sobre muito”, e essa especialização intensiva tem se mostrado altamente eficaz.

A ameaça da automação não se restringe a um setor específico. Atualmente, assistimos a uma invasão simultânea em três frentes distintas: tarefas manuais são impactadas por robôs industriais, veículos autônomos e drones de entrega; tarefas cognitivas sofrem transformações por meio de diagnósticos médicos assistidos por inteligência artificial, análise jurídica automatizada e jornalismo gerado por algoritmos; enquanto tarefas afetivas estão sendo assumidas por chatbots de atendimento, sistemas personalizados de recomendação e até companhias artificiais.

Essa transformação tecnológica pode gerar dois tipos de desemprego: o friccional e o estrutural. No desemprego friccional, os trabalhadores enfrentam dificuldades para se realocar no mercado devido à falta de habilidades específicas — por exemplo, um metalúrgico de 50 anos não se torna programador facilmente, mesmo com boa vontade e esforço. Já o desemprego estrutural pode ser ainda mais impactante, ocorrendo quando a complementaridade entre tecnologia e trabalho humano deixa de ser suficiente para absorver os trabalhadores deslocados. Nesse cenário, quanto maior a autonomia das novas tecnologias, menor tende a ser a complementação e, consequentemente, maior o potencial de desemprego estrutural.

Podemos estar testemunhando a transição da era do trabalho para algo ainda indefinido. Por séculos, o trabalho foi a âncora da estabilidade social, garantindo tanto a distribuição de renda quanto o sentido de vida. Essa âncora pode estar se soltando, e ainda não sabemos o que a substituirá. A velocidade dessa transformação varia entre regiões devido a diferenças nas tarefas locais, custos de mão de obra e regulamentações, mas a direção é irreversível. A questão é se estaremos preparados para as consequências. O futuro do trabalho não é uma questão técnica ou econômica. É uma questão da própria civilização, que exige respostas corajosas para evitar que a maior revolução tecnológica da história humana se torne também a mais desigual.

Comentários

Deixe um comentário