Tem dias que a gente se sente / Como quem partiu ou morreu / A gente estancou de repente / Ou foi o mundo então que cresceu
Esses versos do Chico Buarque sempre passam pela minha cabeça toda vez que sinto que algo vai mal. E foi assim que me sentia quando acordei num dia de fevereiro de 2008. Era um sábado. Fui acender o primeiro cigarro do dia, como fazia regularmente. O hábito trazia uma recompensa, uma espécie de alívio. Tinha bebido bastante na noite anterior e fumado quase um maço de cigarros somente durante a noite. Por alguma razão que nunca entendi, senti algo parecido com repulsa quando pus o cigarro na boca. Preferi devolver o cigarro no maço e sair para caminhar. Vesti um short e calcei um tênis. Foi meu ultimo cigarro.
No ano de 2008, vivi uma transformação significativa em minha vida. Ela começou com a decisão de não fumar um cigarro. Era um sábado, 23 de fevereiro de 2008. Nesse dia também ocorreu a queda de um bombardeiro B-2 Spirit durante o pouso, em Missouri, EUA, por erro humano. Também se comemorou o Dia do Rotaryano no Brasil. Só isso. Não houve um evento isolado de impacto mundial ou nacional registrado. Mas o meu evento foi inesquecível.
Nesse dia saí para caminhar. E tive vontade de correr. Desafiei meus limites. Fiz uma corrida de 52 minutos. Eu tinha 43 anos. Isso aconteceu após um longo período sem exercícios. Na verdade, minha memória não registra atividade física após os 25 anos. Também não registra qualquer cuidado com o que eu comia. Registra muitos cigarros e bastante bebida. E trabalho, muito trabalho. A vida havia se tornado uma rotina sem graça, sem pausas e, principalmente, sem propósitos. Claro, havia minha família. E cuidar dela era um enorme propósito. Mas basicamente era somente isso. Não havia nada para mim. Eu tinha me convertido em uma máquina de geração de renda que sequer precisava ser lubrificada. E o que é pior, foi uma auto-conversão.
Aquela corrida de 52 minutos foi mágica. Quis continuar. Descobri que a prática da corrida era essencial para me ajudar a largar o fumo. Quando tentei fumar um cigarro após essa primeira corrida, tive um grande enjoo. Essa sensação permaneceu por anos sempre que sentia o cheiro de cigarro. Ao longo do ano, busquei apoio profissional. Consultei médico do esporte, que me recomendou exercícios de alongamento, fortalecimento e RPG. Fiz também um check-up completo, que indicou boa saúde geral. Em abril, iniciei um acompanhamento nutricional com suplementação específica. Em maio, comecei uma dieta rigorosa. Isso me ajudou a alcançar uma melhor condição física. Em 2009, minha condição física já tinha evoluído. Participei de eventos esportivos organizados. Isso consolidou minha nova rotina. Buscava novos desafios e eles sempre exigiam preparação. O ciclo virtuoso estava criado. No ano seguinte veio a primeira meia-maratona e logo depois corri minha primeira maratona.
Como escreveu Charles Duhigg, o poder do hábito está na capacidade de transformar e moldar a vida. Isso ocorre por meio de um ciclo de três passos: gatilho, rotina e recompensa. O gatilho é o estímulo que inicia o comportamento. A rotina é a ação que se segue. A recompensa satisfaz o desejo. Ela faz o cérebro memorizar a experiência e repeti-la. Para mudar um hábito ruim, Duhigg propõe a “regra de ouro da mudança de hábito”. Ele sugere identificar esse ciclo e manter o gatilho e a recompensa. No entanto, a rotina deve ser substituída por outra que satisfaça o mesmo desejo. Assim, não é necessário eliminar o hábito, mas transformá-lo em um comportamento mais positivo. Os hábitos agem como uma forma de automação do cérebro. Eles permitem economizar energia mental. Isso ajuda a reservar a força de vontade para outras decisões. Quando bem estruturados, eles favorecem o desenvolvimento pessoal e profissional. Esses hábitos criam rotinas de produtividade, exercícios e disciplina. Eles também exercem impacto social. Eles ajudam a construir movimentos coletivos, fortalecendo a identidade e o senso de pertencimento entre as pessoas.
Em fevereiro de 2008 eu não sabia sobre hábitos. O livro de Duhigg foi publicado também num mes de fevereiro, mas somente em 2012. No ano seguinte foi premiado com o Pulitzer. No meu caso, houve uma troca de comportamento. Eu comecei a correr ao invés de fumar. O gatilho e a recompensa foram mantidos. Eu fumava quando me sentia ansioso ou deprimido. Hoje quando me sinto assim me atiro na atividade física. A endorfina, serotonina, dopamina são recompensas maravilhosas. Assim como outros hormônios liberados durante a prática esportiva. Um pacote muito melhor que a nicotina. Mas nada disso ocorreu porque eu havia identificado o ciclo e planejado a mudança. Ou seja, eu não decidi respirar, do jeito que o título deste artigo pode levar a entender. Algo aconteceu, inconscientemente, que me fez rejeitar o cigarro e abraçar a ideia da caminhada.
Essa questão me intrigou por muito tempo. Formulei algumas hipóteses que explicasse de onde veio tal decisão. Nenhuma delas parecia provável.
Recentemente, li um livro chamado Uma breve história da inteligência, escrito por Max Bennett. A ideia do livro é explicar a evolução do cérebro humano e da inteligência ao longo de bilhões de anos. Ele apresenta uma narrativa que explica como o cérebro se desenvolveu desde organismos simples até a complexidade da mente humana atual. Quando discorre sobre como os animais aprendem onde buscar comida, ou que perigos evitar, sugere o aprendizado por reforço. Ele afirma que o aprendizado por reforço requer dois processos opostos: um para comportamentos que foram previamente reforçados (exploração) e outro para comportamentos que são novos (investigação). Essas escolhas são, por definição, opostas. A exploração sempre direcionará o comportamento para recompensas conhecidas, a investigação sempre direcionará para o que é desconhecido. A solução para o dilema da exploração-investigação é a recompensa biológica para a curiosidade. Ou seja, os animais são recompensados quimicamente por serem curiosos. Eles são recompensados quimicamente por apostarem. Claro que isso nos leva a Vegas, já que a curiosidade explica o jogo, que é uma estranheza irracional de nosso comportamento. Curiosidade está presente em peixes e em ratos, em macacos e em bebês humanos. Ele também diz que a própria surpresa provoca a liberação de dopamina, mesmo que não haja recompensa “real”.
Me convenci que eu decidi respirar não por um plano elaborado pelo meu córtex frontal, mas por uma decisão tomada pela parte reptiliana de meu cérebro. O gatilho foi o mesmo de sempre. Mas a curiosidade sobre uma outra experiência me fez alterar o comportamento. E como as recompensas foram mais do que satisfatórias, foi fácil um vício substituir o outro.

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