Do complexo de Vira-Lata à Potência Ambiental?

Há algumas semanas participei de um encontro para debater o futuro do trabalho. Havia recebido o convite e a proposta parecia bastante ousada. Não hesitei em confirmar minha presença, já que o tema é de meu maior interesse. No artigo “Haverá um momento em que a maioria da humanidade não terá trabalho ?” trago algumas teses que estudiosos do tema estão formulando. Esse encontro era um kickoff de um trabalho que analisaria a questão por algum tempo. Embora a agenda não se alinhava exatamente ao que eu havia imaginado, alguns tópicos foram inspiradores. Um, em particular, me intrigou. Foi um estudo chamado “O Brasil que o Brasil quer ser – Caminhos para um novo ideal de país”. O projeto foi criado para servir como base a uma agenda de tratamento de reputação e imagem do Brasil.

O trabalho buscou compreender como o país é percebido tanto por estrangeiros quanto por brasileiros. Ele revelou uma visão positiva da hospitalidade, turismo e riquezas naturais do país. No entanto, há fragilidades em áreas chave como inovação, sustentabilidade, direitos humanos e ambiente de negócios.

Internacionalmente, a principal característica associada ao Brasil é a diversão e o acolhimento. Esses atributos são atraentes. No entanto, eles são insuficientes para garantir reconhecimento em questões mais sérias. O país aparece bem colocado diante dos pares latino-americanos e dos BRICS, mas distante do grupo de grandes potências tradicionais.

No âmbito interno, o estudo mostra uma predominância do sentimento de esperança. Isso ocorre mesmo diante de frustrações e reconhecimentos críticos das dificuldades históricas, como desigualdades, racismo e obstáculos institucionais.

Essa esperança, por muitos anos, foi vista como passiva, baseada em promessas de um futuro melhor. Contudo, o estudo mostra que há bastante espaço para uma esperança ativa. A valorização do país e de suas capacidades está crescendo. Há desejo de assumir um papel protagonista no cenário internacional. O povo brasileiro exibe enorme resiliência, criatividade e habilidade para o diálogo. Essas são características essenciais para enfrentar os próprios problemas. Elas também são fundamentais para promover mudanças estruturais.

O estudo destaca a necessidade de superar o chamado “complexo de vira-lata”. Esta é a percepção de inferioridade em relação a outras nações. Ao romper esse paradigma, o Brasil pode valorizar melhor suas conquistas e competências. O país pode se enxergar como referência global em múltiplos espaços de excelência. Isso inclui biodiversidade, energia limpa, cultura, ciência, políticas sociais, inovação e agricultura sustentável. O país possui ainda uma vocação diplomática única, reconhecida pela capacidade de promover o diálogo e a conciliação internacional.

Para consolidar esse reposicionamento, o relatório propõe a construção de narrativas que realcem os traços de sociobiodiversidade, pragmatismo e acolhimento. O Brasil deve se afirmar não só como detentor de grande diversidade natural e social. Ele também deve se posicionar como protagonista do desenvolvimento sustentável. Além disso, deve ser capaz de atuar como mediador global em tempos de crise climática e geopolítica. Essa atuação exige uma combinação entre ações estratégicas. Isso inclui proteção ambiental, inclusão social, valorização da cultura e combate à desigualdade. Também requer inovação tecnológica e comunicação transparente. Além disso, é necessária uma postura consistente em fóruns internacionais.

Em síntese, a pesquisa descobre um Brasil que quer o protagonismo. E que acha isso possível. O país é capaz de combinar sua grandeza ambiental e cultural com competências inovadoras. E que possui força institucional.

O impacto dessa provocação sobre o paradigma do desenvolvimento econômico e militar como única via é grande. Seria muita ingenuidade cogitar sobre nosso potencial ambiental? Não somos uma potência econômica ou militar destacada. Porém, temos uma grande janela de oportunidade para nos tornarmos uma potência ambiental. Talvez. O tempo nos parece inesgotável na juventude. Mas na maturidade vai se tornando a principal riqueza. Nosso mundo não só vislumbra o esgotamento de fontes clássicas de energia, mas já teme pela própria disponibilidade de água. Assiste a catástrofes causadas por mudanças climáticas. Esse mundo também pode reconsiderar o conceito de valor. Se desta vez fizermos bem a nossa parte, podemos estar num lugar privilegiado nessa largada. Me anima sobretudo o fato de que não é apenas um sonho. É um sonho que está sendo compartilhado. E está sendo acionado.

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